O que tem sido...

Faltava já tem um tempo atualizar o blog sobre como segue meu tratamento...

Fiz minha mastectomia e tudo correu bem, exceto o dreno que entupiu logo no dia seguinte em que sai do hospital e que por esse motivo, exigiu que eu tivesse que ir ao Rio de 3 em 3 dias fazer punções para retirar o seroma. Foi um período cansativo.

Nos primeiros dias ao me olhar no espelho, foi de um estresse sentido, mudo, calado na sua impotência... A sensação de mutilação é real e latente, e exige de mim um exercício em conjunto de domínio da mente, do corpo e principalmente da alma. Tentar superar e acreditar na mastectomia como um detalhe, frente à possibilidade de cura e de direito a vida, é o ponto chave. 

Hoje já me conformo e acredito mesmo que o preço, se for esse, é muito baixo perante o presentão da vida... Pessoas passam por estórias semelhantes ou diferentes, não sou mais sofredora e nem menos sofredora do que os demais, apenas cada um de nós, temos nossas medidas, nossas próprias dores e dificuldades particulares... Não se trata de quem sofre mais ou menos e sim de Superação! Isso é o que determina o sentido e o nosso verdadeiro valor!

Resumidamente, deixo minhas impressões vivenciadas nesses 2 meses de intensos acontecimentos e onde me senti em muitas ocasiões dentro do olho de um furacão. Não bastasse meu estresse particular da mastectomia quando do retorno da cirurgia, ainda recebi a notícia de que o linfonodo sentinela deu positivo e houve necessidade de ser realizado o esvaziamento axilar.


Associado a tudo isso, as mazelas do serviço público, aquele em que depois de esperar por 20 longos dias com pontos cicatrizando, fazendo punções, chegamos as 4 e meia da manhã ainda noite ao Inca e me deparo com outras dezenas de pessoas que chegaram por lá, tbm na busca do mesmo objetivo. Tanto alvoroço é porque é o dia que finalmente abre-se a agenda para marcar consulta com o mastologista... (acontece uma vez ao mês).

Completava-se quase 30 dias que tiraram meu peito, minha mama, meu câncer, e de lá pra cá, nenhum, mas nenhum médico me olhou ou orientou e o resto do tratamento? e agora? Viajo 160 km de distância, e mesmo chegando cedo vou pro meio da fila. Depois da espera, me vem a resposta daquele "ser" do outro lado do balcão que nem me olha nos olhos e parece alheia ao sofrimento de todos ali, dizendo friamente... "-Só tem para o mês que vem!"   - Como assim para o mês que vem?!  e ai começa a xêpa, sangue "portuga" e não muitas papas na língua me fazem detonar toda minha indignação. E logo estou novamente fazendo um percurso que se torna quase uma rotina: "Quem tem boca vai a Roma!" e "Roma" no Inca tem nome: Ouvidoria! 

Chora daqui, reclama de lá, uma impotência, uma necessidade de infelizmente ter que pedir, implorar e se sentir mais um número numa linha de produção, numa estatística. Não há envolvimento, cumplicidade. Não se sente em uma luta de médico e paciente, unidos pela vida... É uma luta solitária contra todas as armadilhas que o serviço público nos prega o tempo todo, com seus entraves de falta de vagas e muitas vezes apenas a falta de um olhar solidário.

Desde o dia que iniciei meu tratamento, cada vez que passo por uma consulta é um médico diferente. Em geral, residentes que trabalham sob a supervisão de uma chefia que só aparece em última necessidade. Não faço ideia de quem me operou, e nem mesmo depois da cirurgia tive a honra de receber esse “Santo”. Confio apenas que ele deve ter feito seu trabalho de forma profissional e competente (Deposito minha fé nisso e no fato do Inca ser uma referência) Mas isso é justo?? Tudo é impessoal e as dúvidas quando surgem não conseguem ser de pronto saciadas e acreditem, embora não pareça, a verdade é que sou e devo me sentir PRIVILEGIADA!! Porque pelo menos eu operei, pelo menos eu estou recebendo o tratamento. Se a cada etapa é uma luta onde tenho que discutir com quem deveria me defender, pelo menos tenho saído vencedora em cada uma delas! Mas gente! Isso não era pra ser assim!! 

Deixo claro que não são só coisas ruins. Mal ou bem existe um outro lado. Existem pessoas humanas que se movem por nós lá dentro, naqueles corredores. Profissionais dedicados, médicos que tentam dentro de suas possibilidades nos passar segurança... Éh... tem muita gente boa, não posso deixar minha indignação momentânea cegar que dentre tudo o que relatei, também me deparei com anjos! Dra Renata Reis, foi minha esperança e a que me colocou no caminho em um momento que me encontrava perdida, sem saber o rumo a tomar... A Nádia, que graças ao seu empenho, conseguiu antecipar para mim algumas consultas e obtive os relatórios preenchidos que meu seguro exigiu... As enfermeiras da sala de curativo que me atenderam com atenção. A guarda da portaria, sempre agindo de forma solidária e com simpatia para todas as mulheres que sobem o "ladeirão" pela primeira vez... E o pessoal lá do 5º andar, onde fui muito bem cuidada nos dias em que estive internada pra cirurgia. Os voluntários que entra semana e sai semana, estão ali sempre disponíveis tentando informar e orientar. 

Tem muita coisa dando certo ali. Ainda podia ser melhor! Podia ser realmente pra todos! Mais rápido, menos doloroso e mais humano... 

Mas eu? Eu ainda sou privilegiada!



Logo volto pra contar como está sendo a "SINISTRA" Quimioterapia...

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